terça-feira, abril 25

Até breve querido Inverno!!

O "lobo del mar"

8h00m a.m., nada de lacticínios, duas fatias de pão seco e uma banana chega e sobra - vai lá com leitinhos de chocolate e iogurtes líquidos e vais ver a cor da bílis - pelo sim pelo não, aqui vai disto: vomidrine pelo bucho a dentro. A caminho do porto fazem-se as últimas previsões meteorológicas e divaga-se sobre a mareação que se vai encontrar pela frente. Hoje as condições amainaram conforme previsto, não fosse a sensatez do mestre em cancelar a zarpadela de ontem e tinhamos passado um mau bocado, quem sabe sabe!
Rumo de 210º, vento de 10 nós do quadrante E, variando para SE a seu bel prazer, vaga de W com uns bons 2.5 m, estes eram os números dos dados para a viagem até à Figueira.
A saída da Barra foi o levantar do pano, o cenário era impressionante, o mar e o céu fundiam-se num cinza chumbo e as vagas ganhavam corpo ao aproximarem-se dos molhes, compassadas, imponentes. O barco cortava trajectórias diagonais com a precisão de uma lâmina mantendo o casco bem cravado na face das ondas que nos subiam e desciam. Lá no alto das cristas, a vela grande enche-se e estica-se, no vale esmorece. Aqui a perícia do skeeper é decisiva e entre o orçar e o arribar, o folgar e o ajustar, vai um mundo de saber, uma combinação de conhecimento tácito e explícito comprovados pela experiência vivida de anos a fio. Baixámos o balão e subimos a genoa, o barco ganha outra velocidade lá para os lados da Tocha - que lindo cordão dunar! para além dos mergulhões e das gaivotas só nós o estamos a ver embalados pelo oceano com uma chuvinha fraca a refrescar a face. E aí vai uma lourinha e a bela sande de peru panado, para quem tem calo é claro! Eu fico-me por um rissolinho de camarão...houve até quem arriscasse o cigarrinho da praxe!
Dobramos o cabo mondego após 4 horas de viagem, e contornamo-lo à distância de três vezes a altura da serra da boa viagem para não perder o vento. Aqui assistimos a linhas de ondas a quebrar perfeitas em frente à fábrica de cimento, que pena não podermos lançar ferro e saltar para a àgua...
Segue-se a regata "treino" para a tripulação do Delmar Conde, o mestre dá as ordens e a equipa nas suas posições executa os mandamentos, a azafama é constante e o convés transforma-se numa amalgama de cabos que são puxados e folgados a um ritmo frenético mas simbiótico, a maravilha da cooperação em pleno. Sim são cabos e não cordas, porque num veleiro só existem três cordas: a corda do relógio, a corda do sino e o "acorda que já se faz tarde"!
O barco galga as ondas e segue ligeiro de patilhão à mostra com a autoridade imprimida pelos experientes tripulantes sob a batuta do maestro, o "lobo del mar"!!

terça-feira, abril 4

Cool under pressure

Todos os desportos têm o seu pesadelo, aquele evento que todos temem que aconteça. Nas bikes será talvez o partir do guiador numa descida a topo, na formula um perder a direcção à saída da parabólica, a queimar os 300km/h, no boxe talvez seja levar com um ko no primeiro minuto, ficar sem um dente da frente e ainda por cima o outro magano ter metade do teu tamanho!
No que toca às vagas de mar o assunto é sério e é certinho: entrou vai levar! E é bom que se tenha esta regra na cabeça porque pode fazer a diferença entre o pânico e o "cool under pressure"
Sempre imaginei como teria que ser um homem que leva com uma morra de 12' Pipe terceiro reef ou Jaws 30' pelo costado abaixo...a primeira impressão é a de que niguém leva com uma "besta" dessas e fica para contar a história. Bom, tirando as baixas definitivas e óbvias, a maioria das vezes levam sim senhor e ficam com episódios para contar aos netos. Então a resposta para o mistério lampeja na alma: a malta deve ser de gladiador para cima, gente de bícepes de aço e caixas toráxicas anormais, sim de facto não existem muitos que se exponham a situações dessas! Surge então a imagem de Brook Little, corpinho estilo bruce lee, a entubar em Waimea, mas ao mesmo tempo não se esqueçam do mito, bem real, da preparação do Ken Bradshaw e cª lda para o vagalho...longas caminhadas pelo fundo do oceano com um pedregulho no regaço! Lopez medita na casa da àrvore a mirar G-Land, a mente comanda o corpo...o Mike Parsons relaxa e deixa-se levar consciente e astuto no negro turbilhão de toneladas de àgua no campeonato do mundo de town in 2005...a mente e o corpo...e não é fácil...todos já passaram pelo mesmo à sua própria escala.
A visão de um set "gigante" a formar-se no outside, a avançar sem obstáculo à altura da sua força, lança por momentos a dúvida na cabeça, aquela que custa a aceitar, será que passo? Num àpice surge no cérebro a resposta...só saberei depois de passar a primeira...no climax surge a visão, a parede seguinte cresce a olhos vistos, vigorosamente, a sublinhar a sua imponência à medida que se aproxima do banco...surge a segunda dúvida...atraso ou acelero para não levar com o lip na modesta moleirinha....surge a resposta e com ela o bater do coração no pescoço, como que a bombar sangue já de sobre aviso...a vista é bela e grotesca...a massa de àgua cresce e das alturas abate-se...por instantes parece cair em câmara lenta como se permitisse a última golfada ao artista...o impacto é severo e o corpo ganha a plasticidade da àgua...surge o silêncio...