O "lobo del mar"
8h00m a.m., nada de lacticínios, duas fatias de pão seco e uma banana chega e sobra - vai lá com leitinhos de chocolate e iogurtes líquidos e vais ver a cor da bílis - pelo sim pelo não, aqui vai disto: vomidrine pelo bucho a dentro. A caminho do porto fazem-se as últimas previsões meteorológicas e divaga-se sobre a mareação que se vai encontrar pela frente. Hoje as condições amainaram conforme previsto, não fosse a sensatez do mestre em cancelar a zarpadela de ontem e tinhamos passado um mau bocado, quem sabe sabe!
Rumo de 210º, vento de 10 nós do quadrante E, variando para SE a seu bel prazer, vaga de W com uns bons 2.5 m, estes eram os números dos dados para a viagem até à Figueira.
A saída da Barra foi o levantar do pano, o cenário era impressionante, o mar e o céu fundiam-se num cinza chumbo e as vagas ganhavam corpo ao aproximarem-se dos molhes, compassadas, imponentes. O barco cortava trajectórias diagonais com a precisão de uma lâmina mantendo o casco bem cravado na face das ondas que nos subiam e desciam. Lá no alto das cristas, a vela grande enche-se e estica-se, no vale esmorece. Aqui a perícia do skeeper é decisiva e entre o orçar e o arribar, o folgar e o ajustar, vai um mundo de saber, uma combinação de conhecimento tácito e explícito comprovados pela experiência vivida de anos a fio. Baixámos o balão e subimos a genoa, o barco ganha outra velocidade lá para os lados da Tocha - que lindo cordão dunar! para além dos mergulhões e das gaivotas só nós o estamos a ver embalados pelo oceano com uma chuvinha fraca a refrescar a face. E aí vai uma lourinha e a bela sande de peru panado, para quem tem calo é claro! Eu fico-me por um rissolinho de camarão...houve até quem arriscasse o cigarrinho da praxe!
Dobramos o cabo mondego após 4 horas de viagem, e contornamo-lo à distância de três vezes a altura da serra da boa viagem para não perder o vento. Aqui assistimos a linhas de ondas a quebrar perfeitas em frente à fábrica de cimento, que pena não podermos lançar ferro e saltar para a àgua...
Segue-se a regata "treino" para a tripulação do Delmar Conde, o mestre dá as ordens e a equipa nas suas posições executa os mandamentos, a azafama é constante e o convés transforma-se numa amalgama de cabos que são puxados e folgados a um ritmo frenético mas simbiótico, a maravilha da cooperação em pleno. Sim são cabos e não cordas, porque num veleiro só existem três cordas: a corda do relógio, a corda do sino e o "acorda que já se faz tarde"!
O barco galga as ondas e segue ligeiro de patilhão à mostra com a autoridade imprimida pelos experientes tripulantes sob a batuta do maestro, o "lobo del mar"!!

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