Trata-se de um artigo que escrevi para o jornal do Centro de Conservação e Protecção do Ambiente da Universidade dos Açores a saír no próximo nº:
Mar
“Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.”
Sophia de Mello Breyner Andresen
Está tão presente que negligenciamos a sua existência e a sua importância. Temos dificuldade em constatar o mais evidente: aqui o Mar é tão importante como o ar que respiramos. Aqui o mar é a nossa casa e a sua condição influencia muito linearmente as nossas vidas. Podemos avaliar uma sociedade pelo valor que esta dá ao sítio onde vive, na forma como ela se relaciona com o meio ambiente. Aqui nos Açores, ilhas oceânicas, todos vivemos no (do) mar. Talvez fosse sensato defendermos, com determinação e teimosia, a nossa casa contra a ignorância, contra a inércia, contra a política da mais valia imediata.
Tomo como exemplo um caso sintomático de abandono, negligência, incuria e cegueira. Um local de que não se fala ainda que esteja à vista de todos. Trata-se de uma praia, um bem raro e valioso num local com as características da nossa ilha. Temos muito poucas aqui e ainda menos as que têm um fácil acesso.
Falo da praia a que chamam, como que por sarcasmo, de Monte Verde na Ribeira Grande. Esta “praia”, transformada em depósito de entulho, tem constantemente um cheiro pestilento das descargas de esgotos transportadas pelas ribeiras, directamente para a areia, formando pequenas lagoas onde frequentemente as crianças locais tomam banho.
Trata-se de uma má gestão, ou ausência dela, por parte das entidades com capacidade de decisão e com certeza que o conceito de Desenvolvimento Sustentável não figura na lista de prioridades de quem tem a responsabilidade, ainda que esta expressão seja utilizada abusivamente todos os dias. Não, em vez de re-qualificar aquela zona do ponto de vista ambiental, em primeira instância, e posteriormente criar as condições para que se possa usufruir do local, dá-se prioridade a projectos impracticáveis, megalómanos e desfazados da realidade, como se fosse possível construir uma casa a partir do telhado.
Tendo em conta esta realidade, parece-me abusivo que no site da Câmara Municipal da Ribeira Grande apareça este “slogan” espantoso: “É a Ribeira Grande virada para o turismo e para o mar”. Assim se bate no fundo do descaramento e da falta de vergonha. Falta de confiança dos portugueses na política? Descrédito? Desconfiança? Abstenção?
Será que mesmo economicamente, em tempo de crise, nos podemos dar ao luxo de desperdiçar um recurso (sim, é disso que se trata) tão atractivo e capaz de gerar tantos dividendos? Imaginem o que aquela praia, bem cuidada, poderia trazer à Ribeira Grande e às suas gentes. Imaginem infâncias saudáveis, longe do lixo, um local a visitar e não a esconder. Por muito que pense não consigo chegar a uma explicação minimamente lógica para o que se passa nesta praia.
Mas a responsabilidade não se esgota nos políticos. Será que nós fazemos tudo que está ao nosso alcance para alterar esta situação? Cabe-nos a nós pressionar os políticos e fazer com que mudem de rumo. É chocante a passividade da população relativamente a este assunto, em especial, a passividade da comunidade científica. Afinal, existe nesta ilha uma Universidade em que a investigação na área do ambiente tem um peso enorme. Para que serve uma instituição universitária? E a tal capacidade crítica independente, suposta essência do espírito académico? Calados entre Gregos e Troianos! Vamos comprar esta guerra pois na vida se há batalhas que valem a pena ser travadas, esta é com certeza uma delas!
Adriano Quintela
ps: Já agora esta praia também dá altas ondas