Meio Liquido
O meio líquido é uma sala de estar. Serve para contar e ouvir histórias sobre a tribo de corredores de vagas de mar, assim brilhantemente chamados por um amigo açoreano. Pode também servir para partilhar idéias, conhecimento, imagens ou o que quiserem. O elo de ligação é o mar e a experiência de o navegar, explorar ou deslizar nas suas vagas de energia celebrando a vida numa costa algures no planeta. Sejam bem vindos, sejam livres.
terça-feira, janeiro 23
Somewhere in Chile
Ja saiu o calendário do WCT de 2007. A novidade deste ano é o Rip Curl Pro Search que será "Somewhere in Chile". Sempre ouvi falar de altas ondas por esses lados, com apenas um senão... água fria. E isso já tenho que chegue.
No resto tudo igualzinho. Mantém-se Mundaka e até a sequência é exactamente a mesma. Ainda bem.
Confiram aqui as datas e não se esqueçam de ver em directo.
No princípio estava o mar
"Vocês são todos um bando de malditos obcecados", gritou, e fechou-lhe a porta na cara. A única coisa que ainda tentou dizer foi "malditos..!!??", mas era inútil, já não teve tempo, e de qualquer das formas era a única coisa que podia dizer, quanto ao resto era tudo verdade. Que ele não tinha aparecido, que ela o esperara toda a tarde, mais de três horas naquela esquina barulhenta e mal frequentada, (...), que estava consumida de tão preocupada, e ele, afinal, nas ondas, a marimbar-se para tudo, "querida, era um swell inesperado", que tentasse compreender, já não tivera tempo para a avisar, na realidade nem sequer se lembrara...
E sobretudo era mesmo verdade aquela dos obcecados. Era, como todos os outros, um maldito obcecado. Não pelo frio, isso não era nada. Nem tampoco pelo dinheiro que estourava em gasolina. Aqueles que faziam 200 Kms de auto-estrada no unico dia da semana em que não se trabalha, para se enfiarem num restaurante da Bairrada e empanturrar-se de leitão e de espumante, esses é que sim, queimavam uma fortuna em combustível e portagens. Nem pelo nervosinho. quando sabia que havia ondas e não conseguia libertar-se de um compromisso ou lhe faltava tempo. Piores do que ele, eram os tolinhos da bola que nem iam trabalhar quando trasmitiam uma quarta-feira europeia, ou que condicionavam uma má disposição ao resultado da partida do clube de eleição.
Não era obcecado sequer pelas prioridades que punha na vida. Aceitava perfeitamente que não podia ser só surf e o resto era comer ar e dormir debaixo da ponte. Havia que pensar no futuro, encontrar uma carreira profissional que o realizasse, ou melhor ainda, que lhe deixasse tempo para fazer surf todos os dias. Sabia bem, no entanto, em que é que era obcecado. Ele e todos os outros. Todos, ele e os outros, só pensavam em ondas. Quando lia nas etiquetas do chá que era produzido em Ceilão, pensava logo nas ondas do Sri Lanka, não lhe vinha à cabeça o chá, mas sim que lá a água era quente e que embora as ondas não fossem excepcionais, eram bem simpáticas e que não se importaria nada de um dia lá ir. Quando mostravam os furacões na Flórida e calculavam os prejuízos e entrevistavam a dona de casa que ficara sem casa, ele queria lá saber dos prejuízos e da tragédia, queria era ver o mar e as ondas que alguns dias depois estariam a chegar, já arrumadinhas, a Rhode Island. Já quando anunciaram o fim da discriminação racial na África do Sul, o que o preocupou foi saber se o crowd iria aumentar em Cave Rock. E, claro, era de acordo que Timor era um problema dos portugueses, mas numa perspectiva muito diferente daquela oficial. O verdadeiro problema de Timor era que a Indonésia não carimbava um visto de entrada no passaporte dos portugueses...
Sim, a miúda batera-lhe com a porta na cara, a água salgada caía-lhe pelo nariz abaixo, ainda sentia os pés gelados e era um "maldito obcecado". Mas o sangue corria-lhe com força no corpo, amanhã ainda ia ser melhor porque o mar estava a subir e estava com uma fome tal que só de antecipar a sopa quente já lhe vinha a vontade de cantar e cumprimentar as pessoas que passavam por ele e regressavam a casa do emprego.
Afinal não era preferível ser um maldito obcecado que um sonâmbulo indiferente? Aliás, pensando bem, graças a Deus era um obcecado e a vida - o que é a vida? A vida não é nada sem uma maldita obsessão, principalmente quando a obsessão tem um fundo de laje e lhe dá o vento por terra e não pára de rodar e é tão perfeita e divina, que faz chorar por mais...
de Gonçalo Cadilhe
sexta-feira, janeiro 5
Citando: Fred d' Orey
Há muita coisa que eu encontro, quero citar ou comentar, e não arranjo tempo. Por isso, e no sentido de não privar ninguém de conteúdos que considero de alto interesse, passo a transcrevê-los. Espero que valha a pena.
"Muitas vezes as experiências mais interessantes de uma surf trip não são os tubos, nem as batidas, nem o sol se pondo dentro d'água. Mas são essas coisas que nos levam a agitar um empréstimo com o pai, empacotar as pranchas e botar o pé na estrada. A perspectiva de pegar tubos insanos e de ficar exausto depois de um final de tarde alucinante nos deixa loucos. Por isso partimos. Saímos em busca daquilo que não encontramos em casa. E a sorte dos surfistas é que essas ondas acontecem bem longe da estrada principal. A gente tá sempre se metendo em buracos e barracos do 3º mundo em busca da tal onda perfeita. E acontece cada coisa que papai-mamã-e-titia nem imaginam.
Eu já sabia que na Libéria o buraco seria bem mais embaixo, mas nada me preparou pra aquela primeira noite. Sendo a Monrovia uma das cidades mais perigosas do mundo, o plano original era correr da capital antes do anoitecer. Mas estávamos em plena crise Israel-Líbano, e justo naquele dia os libaneses, que controlam o pouco do que sobrou da destroçada economia liberiana, fecharam seus mercados mais cedo e foram pra porta da embaixada americana protestar.
Sem mantimentos, tivemos que aceitar o convite do nosso guia local, Dominic, de dormir em sua casa, e fazer as compras no dia seguinte. Mas quando o carro foi adentrando algo parecido com a favela da Maré a coisa passou de folclórica a perigosa em minutos. Os habitantes do lugar vieram ver o que era. Mas nada de sorrisos.
Éramos cinco gringos carregados de equipamentos e pranchas, bem alimentados, e eles eram os sobreviventes de mais de vinte anos de constantes chacinas. A instrução de Dominic era tirar tudo do carro o mais rápido possível antes que juntasse mais gente. A casa não tinha nem janelas nem móveis. As crianças vagaram o único quarto, esticamos as capas de prancha e, desafiando o intenso cheiro de nhaca e mofo, tentamos dormir suando em bicas.
No meio da noite, gritos ao redor da casa, discussão acalorada, garrafas explodindo contra a nossa parede. Parecia coisa de grupos de adolescentes depois de muitos drinks voltando de uma festa. Mas não era bem isso. No dia seguinte, Dominic, com duas enormes olheiras, me contou o que se passou. Os caras queriam derrubar a porta e nos saquear, mas Dominic montou guarda com dois enormes pedaços de madeira e os fez mudar de idéia. Ele sabia que aquilo poderia acontecer e nos protegeu.
Já em Robertsport fomos tratados como reis, principalmente pelas crianças, que nos adoravam. Elas cercavam o acampamento do amanhecer ao por do sol. Nos seguiam em nossas caminhadas, traziam amêndoas, coco, e ajudavam a carregar o equipamento do John. Vibravam com o nosso surf. Nós éramos muito diferentes do que estavam acostumadas, mas só depois percebi a intensidade desse fascínio.
Uma noite, depois do jantar, chovia leve, e o gerador ainda funcionava. Debaixo de uma tenda de lona, nos espremíamos em frente ao Mac do fotógrafo pra ver as fotos do dia. Olhei pra trás e percebi algo na escuridão. Fui mais perto. Liguei a lanterna na direção da praia. Não acreditei em cena mais hilária e querida. Oito moleques sentados em dois improvisados bancos de madeira, debaixo de chuva, nos assistiam tal qual a uma sessão de cinema. Eles na total escuridão e nós éramos o filme. Quando a lanterna os flagrou, abriram o maior dos sorrisos, entre sem graça e felizes por terem sido descobertos. Crianças são crianças em qualquer lugar do mundo, e serão eles os futuros 'donos' do pico. Com certeza um dia irão se lembrar dos gringos que apareceram por ali pela primeira vez no longínquo ano de 2006.
Mas depois de doze dias dormindo no chão, meu corpo pedia cama e lençóis limpos. Tinha lido na internet que pelo menos um hotel havia sobrevivido à guerra. Na última noite dei a notícia: "Não sei sobre vocês mas eu vou pro Royal Hotel". No dia seguinte, os caras me deixaram no Royal (que de royal não tinha nada, mas a cama pelo menos era limpa) e foram dormir no chão da casa de um missionário canadense (como eles se arrependeram…). Combinamos de jantar no sushi bar do Royal, que um polonês tinha mencionado, ainda no avião. "Talvez em Nova Iorque tenha algo parecido", ele disse. Como assim? Fiquei com aquilo na cabeça. O telefone tocou e eu desci pra encontrar meus companheiros no tal sushi. Uma placa anunciava seu nome, Living Room. Abri a porta. Foi como se tivesse entrado em outra dimensão. Me deparei com um lounge maravilhoso e música alta. Mulheres lindas com saias curtas, negões estilo puff dady, libaneses com correntes de ouro e rolex no pulso conversavam animadamente pelos sofás. No salão principal, uma chinesa top model me encaminhou à mesa. Meus parceiros de trip não acreditavam no que estavam vendo e vivendo. Seus queixos caídos diante de tanto bom gosto e opulência.
O som era perfeito, moderno, eletrônico. A decoração com sua luz baixa, paredes de veludo vermelhas e piso preto, me faziam lembrar night clubs londrinos. As mesas estavam lotadas, o restaurante bombava. Então era assim que a elite se divertia em países destroçados? Do lado de fora, altos muros e homens fortemente armados impedem a massa miserável de entrar. Que contraste absurdo. A primeira, a última e a noite das crianças não podiam ser mais diferentes. Mas as três compõem o quebra cabeça de uma surf trip, de uma país chamado Libéria e do mundo como o construímos."
Por Fred d' Orey, na revista Fluir


